Rio Grande do Norte anexa seus mártires ao turismo religioso do mundo

Adeptos e simpatizantes do Caminho de Compostela, Santuário de Lourdes, Igreja Sagrada Família, Círio de Nazaré e Aparecida ganham mais um destino com a força intrínseca dos grandes lugares religiosos mundiais: o Caminho dos Santos Mártires de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte.

Por Paulo Atzingen, de Nísia Floresta (RN)**


Um dos pontos altos do roteiro Caminho dos Santos Mártires no Rio Grande do Norte é Uruaçu, local onde ocorreu um dos mais sanguinários massacres de brasileiros católicos em nome da exploração econômica, viés religioso e poder político no século XVII.

Embora o episódio trágico que aconteceu em 3 de outubro de 1645 tenha registros que possam “espantar” o turista tradicional, superficial e aprendiz, Uruaçu tem sido destino de peregrinação de milhares de fiéis, visitantes e turistas religiosos. A tendência é que, passado o período pandêmico, o turismo doméstico seja anabolizado, impulsionado pelas próprias limitações sanitárias internacionais e, também, pela procura de destinos e atrativos que ofereçam uma vivência mais profunda e com conteúdo.

“As pessoas têm buscado mais significado para suas viagens, talvez um reflexo das perdas e das lições que tivemos e estamos tendo na pandemia”, afirma o jornalista e editor da Revista Viagens de Fé, Amadeu Castanho. “Tudo leva a crer que sairemos melhores desta”, resume o colega.

A tendência é que, passado o período pandêmico, o turismo doméstico seja anabolizado, impulsionado pelas próprias limitações sanitárias internacionais (Crédito: Paulo Atzingen)

Amadeu parte do pressuposto de que o turista pós-pandêmico será um turista que irá viajar mais em família. Antes de viajar, segundo ele, este novo turista já está sendo bem mais exigente, irá visitar o destino de forma online, consultando as pontuações fornecidas do lugar por outros visitantes, através de plataformas como o TripAdvisor. “Ele quer saber se o lugar que ele vai colocar a sua vida e de sua família oferece segurança, saúde, sustentabilidade”, explica Castanho.

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O roteiro dos Santos Mártires de Cunhaú e Uruaçu comprova o caráter religioso do brasileiro, em especial o povo potiguar, que alimentado pelas tradições da oralidade passada de pai para filho manteve viva a história de seus mártires.

Força Trágica e simbologia de fé

“Até então os santos mártires foram adorados pela sua força trágica e simbologia de fé. Com o Caminho dos Santos Mártires de Cunhaú e Uruaçu queremos juntar tudo isso, tradição popular com o turismo religioso e tornar o Rio Grande do Norte e esta região uma das referências do turismo religioso do Brasil”, afirma Manoel Sidnésio Gomes e Moura coordenador e elaborador do roteiro.

Sidnésio Gomes e Moura coordenador e elaborador do roteiro: “tornar o Rio Grande do Norte e esta região uma das referências do turismo religioso do Brasil” (Crédito: DT)

Sabe-se que em todos os países do mundo os mártires são muito cultuados pois representam a força e a resistência de invasões ora sob o pretexto econômico (quase sempre), ora sob o pretexto político e até religioso. No Rio Grande do Norte esses três elementos se combinaram, conforme explica o guia de turismo potiguar Jorge Cesário de Oliveira Jr: “Vivíamos sob uma guerra entre as forças dos grandes navegadores e conquistadores de terras como Portugal, França e Holanda; nosso território era comprovadamente fonte de matérias primas praticamente inesgotáveis e por último o Calvinismo* era uma teologia que se opunha ao nosso perfil colonial católico”, afirma Júnior.

Beatificados e Canonizados

Quando afirmo no título que o Rio Grande do Norte anexa seu turismo religioso ao mundo não quero usar a prática rasteira de alguns jornais e blogs sensacionalistas que vendem manchetes espetaculares para atrair leitores desavisados ou desatentos.

Quando afirmo no título que o “Rio Grande do Norte anexa seu turismo religioso ao mundo” não quero usar a prática rasteira de alguns jornais e blogs sensacionalistas que vendem manchetes espetaculares para atrair leitores desavisados ou desatentos.

Francisco e João Paulo: santificação e beatificação dos mártires, respectivamente (Crédito: arquivo público)

Os Mártires do Rio Grande do Norte, por sua importância teológica inquestionável, foram beatificados por João Paulo II no ano 2000 e, em 2017, exatamente no dia 15 de outubro, foram canonizados pelo Papa Francisco. Ou seja, eles ganharam e ganham a partir de agora, com um roteiro estruturado, o mesmo status de Irmã Dulce, em Salvador, e Padre Anchieta, em São Paulo, todos santos e reverenciados pelo Brasil inteiro.

Santuário dos Mártires

A devoção aos mártires de Cunhaú (Veja Matéria) e Uruaçu vêm crescendo a cada ano, por ocasião das festividades que acontecem todo ano em torno da data de 3 de outubro.

O DIÁRIO visitou também (além de Cunhaú) o Santuário dos Mártires de Uruaçu, localizado na comunidade rural de Uruaçu, colado a Natal. O atrativo religioso conta com um monumento dos mártires, o templo de devoção e uma grande área para estacionamento. O espaço é aberto aos turistas e religiosos, e a cada mês de outubro recebe milhares de fiéis de todas as partes do Rio Grande do Norte e do País.

O Santuário de Uruaçu conta com um monumento dos mártires, o templo de devoção e uma grande área para estacionamento (Crédito: Paulo Atzingen)

A estrutura está distribuída em uma área de dois hectares. O Monumento aos Mártires foi projetado pelo arquiteto Francisco Soares Junior, tendo capacidade para receber 50 mil peregrinos. No altar há um painel medindo 30 metros. O Padre do santuário é Antônio Murilo de Paiva.

O padre do Santuário de Uruaçu, Antônio Murilo de Paiva, recebeu a imprensa no Santuário(Crédito Paulo Atzingen)

O padre do Santuário de Uruaçu, Antônio Murilo de Paiva, recebeu a imprensa no Santuário. Segundo ele, O roteiro Caminho dos Santos Mártires é essencial para a devoção e para o turismo religioso, porque junta todas as histórias das cidades do percurso. “De Cunhaú a Uruaçu, passando por Natal, Nísia Floresta, São José, Canguaretama, Goianinha, páginas abertas de história”, afirma Paiva. Segundo ele, é um tempo em que se respira a história desses santos brasileiros, potiguares, que banharam o chão com o seu próprio sangue em fidelidade a obra de Cristo. “Que cada peregrino, turista, visitante, possa ao pisar o caminho dos Santos Mártires sair engrandecido, fortalecido, vibrando para viver e experimentar a beleza, a alegria, a fraternidade entre as pessoas e entre os povos”, afirmou à reportagem.

Quem leva?

De acordo com Tiago Andrade, integrante da equipe da Foco Turismo, que cuida especialmente o turismo religioso no Rio Grande do Norte,  o roteiro ao produto Caminhos dos Santos Mártires está pronto. É preciso agora colocá-lo na prateleira de cima das operadoras e agências de viagens do Brasil.

“Estamos oferecendo pacotes de 1, 3, 5 dias intercalando turismo de sol e mar com turismo religioso, turismo de contemplação com turismo religioso, turismo cultural e gastronômico com turismo religioso”, adianta o agente ao DT.

“O próximo passo é iniciar as operações com as agências de todo o Brasil para vendermos esse produto, que é para mim, muito especial”, adianta Andrade, diretor da loja da Foco em Caicó (RN).

Atualmente, os municípios que integram o roteiro são: Nísia Floresta, São Gonçalo do Amarante, Canguaretama e Natal.

Mártires, reconhecidos pela força de sua fé e não de seu poder (Crédito: São Gonçalo do Amarante)

Um Alerta

Esse resgate histórico – que além das bençãos papais foi integrado ao calendário religioso do Estado do Rio Grande do Norte –  deve servir também como alerta para nunca mais ocorrer aqueles equívocos graves de uma civilização rudimentar setecentista – usuária da fé como pretexto para aplacar suas vontades e objetivos geopolíticos. Que esse resgate histórico e o preço de 150 vidas (quem sabe até mais?) sirvam de sinal vermelho – como o sangue de Cristo e dos mártires – para que a apropriação indébita da fé não seja um pretexto para planos políticos em tempos modernos. Mártires são reconhecidos pela força de sua fé e não pela força de seu poder.


Síntese da História

No ano de 1645, a Holanda queria implantar sua religião protestante no Rio Grande do Norte. O comandante da tropa holandesa, rabino, judeu e convertido ao calvinismo Jacó Rabi, organizou com os índios da região o massacre.

 

Em Cunhaú, no momento da Missa, em 16 de julho de 1645, foi publicado um documento convocando a população para após a missa ouvirem o decreto do alto poder holandês. Porém, na hora da missa, antes do “anúncio oficial”, os holandeses se juntaram aos índios locais, os tapuias e também os flamingos para atacar os fiéis que estavam na igrejinha de Nossa Senhora das Candeias para que estes se convertessem ao calvinismo.

O sinal dado pelo comandante, era o momento em que o padre André de Solveral, pároco de Cunhaú elevasse a hóstia sagrada e o cálice da consagração do pão e do vinho. Fechadas as portas, pediram a renúncia de sua fé católica pela do calvinismo e assim seriam poupados. Como vieram a recusar foram brutalmente mortos pelos índios e flamingos.

 

Em Uruaçu, São Gonçalo do Amarante, o massacre se deu em 3 de outubro do mesmo ano, pelos mesmos motivos e autores. O padre Ambrósio Francisco Ferro e tantos outros foram mortos.

Os mártires: André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro (padres) e Mateus Moreira (leigo) que teve o coração arrancado pelos índios (Reprodução)

 

Quem são os santos mártires?

  • André de Soveral

Nasceu em São Vicente (SP), em 1572. Como missionário jesuíta, catequizou os índios no Nordeste do Brasil. Depois foi pároco do Cunhaú, onde foi martirizado a 16 de julho de 1645, durante a celebração da Santa Missa. Com ele morreram outras 69 pessoas.

  • Ambrósio Francisco Ferro

Português de Açores, foi pároco de Natal, a partir de 1636. Refugiou-se na Fortaleza dos Reis Magos e de lá foi levado para o martírio em Uruaçu a 3 de outubro de 1645, juntamente com 80 pessoas de sua paróquia.

  • Mateus Moreira

Entre os leigos que foram martirizados, há o testemunho de Mateus Moreira que, ao lhe ser arrancado o coração pelas costas suas últimas palavras foram “Louvado seja o Santíssimo Sacramento!”.


* João Calvino foi um teólogo, líder religioso e escritor cristão francês. Considerado como um dos principais líderes da Reforma Protestante.


**Paulo Atzingen é jornalista, fundador do DIÁRIO DO TURISMO. Ele viajou a convite dos municípios de Canguaretama, Nísia Floresta, São Gonçalo do Amarante e Natal (integrantes do Roteiro Caminho dos Mártires Santos) com o apoio da Foco Turismo Operadora, da WHel Tour Receptivo e do hotel Praia Bonita.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Que viajem temporal, um mergulho do saber nesse texto, fico grato por tamanha descrição de uma história marcada por sangue e que fortalece nossa Fé. Parabens Paulo Atzingen por um texto coeso de sabedoria que nos enriquece e nos ensina mais da nossa história, Alem de que nos indica e nos faz conhecer um roteiro novo para vivênciarmos melhor nossa historia .

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