Ganhei de presente as revistas Paysage que um dia eu doei

Editar, imprimir e distribuir revistas é parir esperanças…

por Paulo Atzingen*


Fiz isso durante um bom tempo no Sul do Pará. As cidades de Marabá, Redenção, Rondon do Pará, Itupiranga, Conceição do Araguaia, Parauapebas e Carajás de alguma forma foram acariciadas, fotografadas, descritas nas revistas Paysage, no final do século XX, bem na borda dos anos 90.

É certo que fui meio louco em escrever, diagramar, imprimir, lançar, distribuir em bancas e criar listas de assinantes para uma publicação que falava de meio ambiente numa região que à época imperava a devastação ambiental; defender a educação e a cultura em uma época que imperava a educação do latifúndio e a cultura do boi. Escrever sobre turismo era loucura em uma região calçada no extrativismo. Mas fiz isso e faria tudo outra vez.

Esta revista nasceu como nascem aquelas motivações utópicas, carregadas de ilusões, sonhos e vontade em produzir algo útil ao espírito de gente que vivia próxima aos grandes rios Tocantins e Araguaia, aos pés do Grande Projeto Carajás, ao lado da empoeirada Transamazônica, às margens da Hidrelétrica de Tucuruí e seu cemitério de castanheiras. Queria chegar, com minha revista, onde não chegava nem rádio e nem notícias das terras civilizadas, parafraseando Luiz Gonzaga.

Se não fiz dinheiro, e de verdade não era esse o objetivo, quantos amigos eu fiz com essa revista. Amigos que conheci, outros que apenas me conheceram.
Gente que foi fotografada, que foi entrevistada, que foi valorizada em algum momento da vida, e foi arrancada de sua condição anônima para aparecer na página de uma revista colorida e de papel brilhante.

Quanta gente foi colocada na Paysage em uma época que não havia Facebook, Instagram ou qualquer tipo de mídia social. Quanto serviço de utilidade pública, de resgate da memória, de proteção à Cultura, de amor à educação e de exercício da cidadania a Paysage trazia.

É evidente que não fiz essas revistas sozinho. O Nilton me emprestou o próprio carro para usá-lo durante a semana. O Dauro e o Ítalo entraram com publicidade de seus hotéis. O Venâncio abriu as portas da Vale do Rio Doce. O Giusti e o Pagão foram meus assessores jurídicos. O Rildo Brasil fez a arte final. O Márcio fez a diagramação e o tratamento das fotos, o Valdir a revisão dos textos e o Ramid me doou algumas fotos para as capas. Tantos amigos eu fiz com a Paysage!

Acreditava que todas as possibilidades emocionais, alegrias (e decepções, por que não?) que a Paysage me deu já faziam parte de um capítulo que se perdeu no tempo por sua própria natureza material, atômica. O que são papéis encadernados com jatos de tintas impressos diante dos anos, diante de duas décadas? Comida para cupim? Guardara algumas edições, mas elas foram se perdendo pelas estradas, pelas mudanças…

Em minha visita a Marabá esta semana reencontrei oito de minhas filhas na casa da professora Marluce. Ela havia as separado e deixado de propósito sobre a mesa para que fosse a primeira coisa que visse, ao chegar.  Folheei-as, uma a uma, depois de tanto tempo. Pude lembrar da construção do edifício de palavras, da escolha das fotografias, da composição dos blocos de textos, das legendas, das decisões dos títulos, dos sub-títulos, escolhas que ficaram grafadas em definitivo e formaram um todo, formaram uma… Paysage. Pude resgatar do fundo de um rio a emoção daquelas pessoas fotografadas e daquelas crianças que estampavam a página social da revista colorida e de papel brilhante. Pude içar de dentro do meu poço de sonhos e de utopias aquele instante em que tudo o que há de melhor em nós era a palavra e ela eu as oferecia em abundância, enfeixadas em uma revista! Por que era isso que eu sabia fazer!

Enquanto me projetava ao passado com essas divagações, talvez tolas e emocionais, Marluce me desperta:

– Sua revista ajudou muito as aulas de Língua Portuguesa e Literatura na nossa escola…O seu projeto de leitura alcançou muitas escolas… Tenho todas as edições guardadas… obrigado…

Obrigado eu, professora Marluce. Obrigado por integrar um lugar especial nesse barco de amigos, muitos reais, alguns conhecidos e outros anônimos, que algum dia – durante a travessia – leram e curtiram a Paysage.


*Paulo Atzingen é jornalista e em 2005 fundou o DIÁRIO DO TURISMO

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