Um passeio poético pelos quatro cantos do mundo
*Por Sylvia Leite
No texto de abertura, a poesia vem sem disfarce. Em oito estrofes, Paulo Atzingen apresenta a obra e a si mesmo. Não vai falar de sua terra, como fizeram muitos escritores, mas dos lugares por onde andou e de como se sentiu em cada um deles:
Pintar minha aldeia antes do mundo lá fora
Sempre quis fazê-lo,
porém, nunca tive aldeia.
Fui para a vida um passageiro
que tem no efêmero a sua veia.
Numa colcha de retalhos que une estampas e tecidos tão distintos como uma Paris em clima de protestos e a calma contagiante da reserva Mãe Maria, em Bom Jesus do Tocantins, no Pará, Paulo usa essa veia, um tanto poética e um tanto jornalística, para unir esses pedaços aparentemente desencontrados.
O mesmo fio integrador vai tecendo as ligações entre, por exemplo, a dureza do Museu da Inquisição, em Cartagena, na Colômbia, e a animação do Maracatu de Nazaré da Mata, descrita por ele como “uma alegria original, quase primitiva, perdida entre as matas e os canaviais de Pernambuco”.
Nada é sequência de nada, mas tudo revela essa natureza andarilha que fez Paulo sair de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, onde nasceu, viver na Região Amazônica, onde se formou e trabalhou por anos, e chegar a São Paulo, onde criou e dirige um jornal dedicado às viagens: o Diário do Turismo.
Provavelmente, nada disso foi planejado. Pelo contrário. Trata-se apenas da narração de uma jornada que transita entre opostos, assim como ocorreu com sua história de vida e profissão. Mas também não é casual, na medida em que expõe suas preferências mais sinceras.

Diversas também são as razões que o levaram a cada um dos lugares descritos poeticamente no livro: enquanto a visita a Altamira, no Pará, para participar do Chocolat Xingu, era claramente uma viagem profissional, a ida a Austin, percorrendo 800 km a partir de New Orleans, “era o puro deleite de juntar dever e prazer vendo uma banda country de verdade e ao vivo”, como ele mesmo confessou. E, de quebra, conseguiu entrevistar Charlie Edward Daniels.
Ao lado da poesia que impregna todo o texto, Paulo introduz, entre relatos de naturezas diversas, a descrição de lugares dominados pela literatura. É assim na Goiás, ou Goiás Velho, de Cora Coralina, é assim na Casa de Cultura Mario Quintana, que ocupa o prédio do antigo Hotel Majestic, onde viveu o escritor.
E talvez para reafirmar o caráter inesperado e nem sempre feliz de sua trajetória, Paulo faz uma viagem que acaba se tornando a experiência mais difícil e comovente de toda essa perambulação: a visita a Babaçulândia, “a cidade à beira do Tocantins que tem a vista mais espetacular do sertão dos sertões”. Ali, depois de atravessar o cerrado junto à sobrinha Gabriela, ele alcançou o destino, mas chegou tarde para se despedir da irmã que acabara de partir.
Os sentimentos mais íntimos, sejam eles de admiração ou de dor, formam a urdidura das mais de 250 páginas que compõem essa trama que agrega as grandes reportagens de Paulo Atzingen.
Lançamentos
- Feira de Literatura e Artes de Ilhabela – 4 e 5 de setembro
- Bienal Internacional do Livro de São Paulo: 10 de setembro
- Encontro de Jornalistas da Febtur em Canelones – Uruguai – 16 de setembro
- Abav Expo 2026 (data a confirmar)
- Festival de Turismo de Gramado (RS) – 13 de novembro
Patrocinadores
Grupo Bancorbrás; Othon Rio Palace; Schultz Operadora; FBHA; Luck Receptivo; Visite Porto de Galinhas e Vital Card Seguro Viagem
*Texto por Sylvia Leite: jornalista, autora do blog Lugares de Memória e do livro recém-lançado “No Rastro de Rosa, que reúne reportagens sobre lugares relacionados à obra de Guimarães Rosa.




